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A Rio+20 e as preces do fim do mundo (dissonâncias) Envie para um amigoImprimir

E a Rio+20 chega a um desfecho mais que esperado. Democracia, comércio, combate à pobreza, tecnologia, crescimento econômico... são os pontos mais caros do discurso. Intocáveis.

Sobre os problemas, reitaradas lembranças, chamados, recomendações. Nenhum compromisso. Muito menos uma admissão clara de que praticamente não temos nenhum avanço a comemorar, especialmente se compararmos com os retrocessos. Como se não tivessem passados os 20 anos que passaram.

Parece mesmo que é para isso que servem as Nações Unidas. Legitimar o ilegitimável. Empurrar com a barriga, dando um ar pomposo e sério às boas intenções dos responsáveis pela situação. Lustrar a cara de pau dos donos da bola. Talvez isso explique o fracasso da reforma da ONU, hoje esquecida no passado recente.

De um jeito ou de outro, o documento-base preparado para os líderes mundiais na cúpula é uma mera peça de otimismo injustificado. Considerando a urgência apresentada pelas informações de algumas das mais importantes instituições e personalidades da ciência, é inaceitável que a instância superior da governabilidade global omita alguns pontos fundamentais impostos pela busca autêntica da sustentabilidade. Lembremos alguns deles.

Equilíbrio

Há quase uma década, o Departamento de Educação dos Estados Unidos recebeu um relatório de duas especialistas (Irene Sanders & Judith McCabe) sobre o desequilíbrio já causado pelo homem na natureza.

O texto dizia: "Em 1991, uma baleia orca foi vista comendo uma lontra. Orcas e lontras normalmente co-existem sem problemas. Assim, o que aconteceu? Ecologistas descobriram que naquela parte do mar diversas espécies de peixes estavam em declínio. Orcas não comem tais peixes, mas focas e leões do mar sim, para depois formar a base da dieta das orcas. Porém, por conta da escassez de peixes, as populações de focas e leões marinhos também apresetavam taxas de declínio alarmantes. Assim, na falta de seu cardápio habitual, as orcas passaram a caçar outras espécies para o jantar. Com a redução na população de lontras, a de ouriços, prato predileto destas, explodiu. Ouriços se alimentam de algas, e com o descontrole da população destes a de algas também entrou em declínio. Inúmeras espécies de peixes vivem nas florestas de algas agora em extinção na área, causando problemas para as gaivotas e outros pássaros que se alimentam destes peixes...".

O relatório descrevia o efeito em cascata de uma atividade que o homem até hoje não conseguiu regular de forma eficiente: a pesca da baleia. Os pesquisadores descobriram que os baleiros japoneses extinguiram a população de diversas espécies de baleias na área.

Tais baleias tinham como prato principal os mesmos microorganismos que servem de alimento para um pequeno tipo de peixe carnívoro, que, sem a concorrência das baleias, viu sua população explodir. E esses peixes carnívoros, agora em número descontrolado, passaram a comer outros peixes que serviam de alimento para focas e leões marinhos, principal alimento das orcas, que dessa forma tiveram que passar a comer lontras.

O que o documento mostrava didaticamente é o que muitos especialistas sérios vêem tentando ensinar há anos. O planeta depende de um equilíbrio muito frágil que, quando rompido, alastra seus efeitos por todos os lados.

Clima
Outra explicação simples e precisa, porém cientificamente acurada, foi dada por James Hansen, em seu livro Storms of my Grandchildren (Tempestades dos meus netos, 2009). No livro Hansen, principal cientista norte-americano na questão climática, admite que suas análises e projeções estavam erradas. Até aquele momento, Hansen defendia que deveríamos evitar que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera ultrapassasse 450 ppm (partes por milhão).

Novos estudos, publicados naquele ano e relacionados principalmente com os chamados "feedbacks" naturais, fizeram com que ele corrigisse o limite do equilíbrio químico do planeta para 350 ppm de CO2. Acima desse valor seria impossível evitar que o planeta aquecesse acima de 2 graus Celsius. A maior preocupação de Hansen naquele momento era relacionada ao chamado "tipping point". O que em português chamamos de ponto sem retorno, a partir do qual seria desencadeado um processo irreversível de transformação do clima no planeta com consequências imprevisíveis.

Em termos concretos, o que se sabe até o momento é que nunca tivemos tal concentração na atmosfera. Pelo menos não em um milhão de anos. O máximo registrado, segundo os dados coletados no gelo dos pólos, chegou a pouco mais de 280 ppm. Vale lembrar que, pouco antes do início da conferência no Rio de Janeiro, foi anunciado que a concentração de CO2 na atmosfera havia alcançado 400 ppm.

Dissonância
"O maior obstáculo para resolver o aquecimento global é o papel do dinheiro na política", atesta James Hansen, que se autointitula "uma testemunha", não apenas do que está acontecendo com o clima, mas também com o marketing verde (greenwash).

A "dissonância cognitiva" evocada por James Lovelock no seu livro The Vanishing Face of Gaia (2009) é um termo mais ameno para tratar o atual estado das coisas. Nele, os paradoxos da atualidade comprovam a necessidade de mudar a percepção sobre a vida e o planeta. Afinal, nada mais equivocado e arrogante do que manter a idéia de que a natureza é algo a ser dominado e gerenciado.

O texto-base da Rio+20 menciona a necessidade de "promover a harmonia com a natureza" em dois pontos (39 e 40). Mas a idéia se perde soterrada pelas "prioridades e compromissos reais" repetidos em todas as partes do texto.

É como se mal conseguíssimos definir o que significa equilíbrio, harmonia, desenvolvimento, progresso e prosperidade. E na falta de conceitos claros, a lógica do dinheiro impera. Como se pudéssemos realmente comprar coisas como saúde, felicidade, amor. Ou mesmo, como se na falta de comida pudéssemos comer dinheiro.

(Por Mariano Senna, Ambiente JÁ, 21/06/2012)

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