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Desenvolvimento Sustentável, Legislação e Governo, Passivos Socioambientais

Artigo (José Eli da Veiga): Três antídotos podem reverter choradeira da Rio+20 Envie para um amigoImprimir

O grande campeão da quarta cúpula mundial sobre as fronteiras ecológicas do desenvolvimento humano foi um dos dez piores vícios de linguagem: a prolixidade. Mas a boa notícia é que pode valer a pena o exercício masoquista de examinar com lupa os 283 maçantes tópicos da declaração "O Futuro que Queremos".

Como previsto, o Pnuma não será mesmo uma nova agência especializada. Mas até poderá vir a ser muito mais do que isso se forem levadas à prática as oito promessas elencadas depois do estúpido subtítulo "Pilar ambiental no contexto do desenvolvimento sustentável".

De lambuja, ainda surgirá um fórum de alto nível para substituir a raquítica Comissão de Desenvolvimento Sustentável.

A também prevista diluição da "economia verde" foi bem inferior à que desejavam seus detratores, mesmo que não tenha sido consagrada a singela definição original. Conforme o terceiro capítulo, só é verde o investimento que promover inclusão social via empregos decentes sem aumentar a pegada ecológica.

Se consumidores e contribuintes pressionarem empresas e governos nessa direção, só faltará quebrar o tabu da redução das desigualdades para que se comece a falar sério sobre desenvolvimento sustentável.

Também foi confirmada a previsão de que o melhor resultado dessa cúpula das Nações Unidas nem chegou a ser pautado por sua Assembleia-Geral: o prazo de três anos para que sejam adotadas métricas de monitoramento. Em breve será formado um grupo de trabalho com 30 especialistas indicados pelas cinco comissões regionais da ONU.

É preciso apostar muitos cacifes nesse páreo, pois o maior obstáculo a evoluções cognitivas e institucionais na direção do tal futuro que as 193 nações declaram querer está na ausência de critérios objetivos, legitimados e persuasivos sobre a principal assimetria global.

O grosso das 193 nações que estão reunidas no Riocentro dispõe de alto crédito ecológico, pois a pressão que exercem sobre os ecossistemas não atrapalharia a regeneração da biosfera. É a parte do mundo em que as pegadas ecológicas são inferiores à biocapacidade global, mas que infelizmente ainda convive com o cosme e damião do subdesenvolvimento: ampla pobreza multidimensional alavancada por expansão demográfica.

O outro lado do balcão é dos países cujos fortes déficits ecológicos resultam de altíssimo desenvolvimento humano. Onde a erradicação da pobreza já engendrou encolhimento populacional. Lado que ainda está quase vazio, pois são apenas dois: Alemanha e Japão.

(Por José Eli da Veiga*, Folha de S. Paulo, 21/06/2012)

* José Eli da Veiga, professor dos programas de pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP e do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas), é enviado especial da Folha à Rio+20. Site: www.zeeli.pro.br

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