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Entrevista (Malu Ribeiro): Novo Código Florestal ameaça recursos hídricos Envie para um amigoImprimir

Malu Ribeiro, coordenadora do programa Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, alerta que a aprovação da nova legislação ambiental causará uma falta de água drástica e critica "cultura da abundância" que existe no Brasil

“Para que possa ter água é necessário ter florestas.” Foi com esse pensamento que Malu Ribeiro, Coordenadora do Programa Rede das Águas, da ONG SOS Mata Atlântica, apresentou-se aos parlamentares brasileiros nesta quinta-feira (22), Dia Mundial da Água, para defender a não-aprovação do Novo Código Florestal brasileiro, que, se acatado, poderá acarretar não só em uma perda de biodiversidade, mas também no agravamento da situação dos recursos hídricos de nosso país.

Em entrevista ao Instituto CarbonoBrasil, Malu falou sobre a questão da água como um direito humano universal, criticou a atual situação dos recursos hídricos no Brasil, discutiu o papel do Fórum Mundial da Água e apresentou suas opiniões e esperanças sobre o papel da água na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

Instituto CarbonoBrasil - Atualmente, como a senhora vê a questão da água como um direito humano? A água tem se tornado mais acessível?
Malu Ribeiro - Não, acho que a água não está se tornando mais acessível para todos. No Brasil, por exemplo, muitas pessoas só têm acesso à água por ‘gatos’, de forma irregular. Do mesmo jeito que fazem ‘gatos’ para a televisão, fazem ‘gatos’ para a água. Há uma exclusão hídrica, mesmo em grandes cidades onde não há falta de recursos hídricos. Na cesta básica, por exemplo, a água não está incluída. Então a água acaba tendo um custo alto para as pessoas de baixa renda. Ela só é barata para quem está em condições regulares. Mas muitas pessoas não têm essa condição.

Como a água pode se tornar mais disponível à população, sem isso representar mais desperdícios?
Ribeiro - O reconhecimento da água como um direito humano de todos não vai estimular desperdício. As pessoas que não têm acesso à água sabem dar valor a ela. Quando a água é vista como um direito humano, as pessoas passam a entender que esse bem não pertence a ninguém, e que o ciclo hídrico não tem fronteiras. Assim, a água de um rio no norte pode ter consequências no clima do sul, por exemplo.

Então, se a água é reconhecida como bem essencial, as pessoas passam a dar valor, passam a entender que a água não tem dono, que é um bem da humanidade. Mas ainda não há essa consciência. É por isso que datas como essa [o Dia Mundial da Água] são importantes para despertar a consciência nas pessoas.

Você concorda com os que dizem que o Brasil é privilegiado por seus recursos hídricos?
Ribeiro - Nesse sentido, o Brasil parece bem, mas não está. Temos muita água, mas ela está sendo poluída. Além disso, nosso país tem a cultura da abundância, então muita água é desperdiçada. Desde pequenos tomamos banho de mangueira, cantamos no chuveiro...O Brasil ainda terá que aprender a usar a água de forma consciente.

Em relação à discussão acerca do Código Florestal: a senhora acha que há alguma ligação entre as duas questões? Se o Novo Código for aprovado, o que pode acontecer com nossas fontes hídricas?
Ribeiro - O Brasil está tentando passar uma imagem no exterior de que a agricultura pode ajudar a salvar os recursos hídricos e a biodiversidade, mas isso não é verdade.  Se o Novo Código Florestal for aprovado, várias regiões vão enfrentar uma falta de água drástica. Pesquisas mostram que cada 100 hectares de floresta armazenam 10 milhões de litros d’água.

Se o Novo Código Florestal permitir que sejam diminuídos, por exemplo, 50% de uma área de preservação, 50% da água também será perdida. A aprovação de mais desmatamento potencializará eventos extremos, tanto enchentes quanto secas. Isso já foi provado cientificamente por várias entidades.  Um grande número de pessoas estará condenada à falta d’água. Para que possa ter água é necessário ter florestas.

Qual é a sua opinião sobre a privatização de recursos hídricos? A senhora acha que há benefícios ou vantagens em tratar a água como commodity?
Ribeiro - As pessoas costumam confundir o conceito de colocar um preço na água com privatizá-la. Dotar a água de valor econômico não significa privatizá-la. O que significa é que se você gastar muito, você pagará mais. Isso faz com que se invista em novas tecnologias para evitar o desperdício. A água já é uma commodity, não dá para fingir que não. Isso é a realidade. Não dá para ter esse purismo. Já a privatização não traz benefícios, pois visa o lucro das empresas que passam a possuir a água. O que se precisa fazer é criar uma boa gestão. Se não houver um preço, as pessoas não vão economizar.

Como a senhora vê o Fórum Mundial da Água? A senhora concorda com alguns críticos que afirmam que esse evento incentiva grandes empresas e governos a venderem a água?
Ribeiro - Eu tive a oportunidade de ir a todos os fóruns, e vejo que o Fórum Mundial da Água é um evento privado, mas é também um espaço de diálogo. É um espaço para reconhecer a água como bem universal, que deve ser disponível a todos. Por isso mesmo, não se pode proibir as empresas privadas de utilizarem a água, desde que elas utilizem esse bem com responsabilidade. O importante é saber como utilizá-la.

Por exemplo, uma empresa de cerveja tem direito de utilizar a água para seus propósitos, desde que não retire a água de suas utilizações mais primordiais, como o consumo básico da população. É importante garantir a água para todos.

Sobre a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), quais são as suas perspectivas em relação aos recursos hídricos? O que podemos esperar da conferência nesse sentido?
Ribeiro - Os documentos que estão sendo redigidos para a Rio+20 são muito diplomáticos. Isso acontece para não haver tensões, então eles criam documentos mais brandos. Acho que o Capítulo 18 da Agenda 21 da ONU, que trata do acesso à água, precisa ser reescrito. A água tem que ser um tema de destaque na Rio+20, e não um assunto periférico. Tenho esperança que isso aconteça para que as decisões nesse sentido possam tirar o Brasil desses índices medievais que ele apresenta com relação à acessibilidade à água.

(Por Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil, 22/03/2012)

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