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Greenpeace aponta falhas de Angra 3 e diz que riscos superam os de Fukushima Envie para um amigoImprimir

Além de defasado, o reator de Angra 3 não está equipado com medidas de segurança presentes nos utilizados na Europa e nos Estados Unidos

O Greenpeace Alemanha divulgou hoje, em conferência de imprensa em Berlim, dois estudos que avaliam a possibilidade de uma catástrofe nuclear acontecer em Angra 3 e suas possíveis consequências. Estes documentos serão enviados ao parlamento Alemão, que atualmente discute o veto do financiamento a projetos de plantas nucleares em outros países, como o novo reator em construção no Brasil.

Os estudos foram elaborados pelos físicos brasileiros Francisco Côrrea, ex-professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE/USP), e por Celio Bermann, atual professor do IEE/USP.

Ambos os documentos expõem as falhas existentes no projeto da usina nuclear e explica que a ausência de certos componentes essenciais de segurança poderiam fazer com que o Brasil tivesse uma catástrofe ainda maior do que a de Fukushima.

Leia o relatório de Francisco Corrêa (em inglês).

Leia o estudo de Celio Bermann (em português).

A usina de Angra 3 foi projetada com equipamentos defasados - o plano data da década de 1970 - e que não estão preparados para eventuais terremotos, tsunamis, tornados e furacões.

Apesar da incidência de desastres naturais desses tipos ser baixa no Brasil, Côrrea ressalta que o local escolhido para a construção da usina se encontra em uma zona onde frequentemente ocorrem deslizamentos de terra e inundações durante a época de chuvas no verão.

Além disso, relembra o episódio do furacão que atingiu a costa de Santa Catarina, em março de 2004, com ventos de quase 160 km/h, e das quatro trombas d’água no Rio de Janeiro – nos anos de 2001, 2005, 2006 e 2009, respectivamente – e que seriam capazes de danificar a estrutura de Angra 3, causando um acidente como o que aconteceu no Japão.

Uma das lições aprendidas com a tragédia japonesa é a de que a segurança da estocagem do combustível é essencial e tal critério não está sendo pensado para a nova usina brasileira, segundo o pesquisador. O armazenamento deve contar com provisão de água suficiente para resfriar o reator, uma vez que a fissão nuclear permanece ocorrendo mesmo após a interrupção na geração da energia.

A usina de Fukushima foi atingida por um tsunami e o sistema de resfriamento foi avariado, a água usada no resfriamento se tornou vapor de alta temperatura, liberando hidrogênio, altamente inflamável, que causou as explosões.

No planejamento dos critérios de segurança de Angra 3 também não foram previstos acidentes envolvendo a queda de um avião, explosões ou incêndios próximos ao reator. E, de acordo com o estudo, o licenciamento da usina foi aprovado antes mesmo que fosse possível saber quais são as reais consequências de um acidente nuclear na região já que a análise de riscos não foi feita especificamente para Angra.

Na verdade, foi elaborada com base nas condições alemãs, imaginando a instalação da usina em planícies e não em uma região montanhosa como a de Angra dos Reis. Além disso, não utilizou a experiência brasileira com Angra 2, apesar das duas usinas terem plantas idênticas e o mesmo sistema operacional. Outra falha é a ausência de um estudo que meça os riscos de se instalar três usinas nucleares próximas.

Segundo o relatório de Côrrea, Angra 3 não passaria por dois dos critérios que estão sendo utilizados pela Eletronuclear, a empresa brasileira que pretende instalar a usina, para escolher locais seguros para a construção de plantas nucleares. Estas não podem ser instaladas em aquíferos ou próximas a falha geológicas e não podem estar próximas a locais densamente povoados com mais de 50 mil habitantes.

Ainda, o local onde a construção é planejada não facilita a evacuação da população em caso de acidente. A rodovia que seria utilizada para emergência seria a BR 101, ainda muito precária. A dificuldade para deslocar os habitantes tornaria a catástrofe ainda pior do que a de Fukushima, onde os moradores conseguiram ser mobilizados e levados para locais mais seguros. No caso do Brasil, eles ficariam confinados, sem poder receber ajuda e expostos à material radioativo.

Côrrea critica as falhas técnicas e de planejamento de Angra 3 e a falta de transparência com que o governo brasileiro lida com a questão. Uma das maiores deficiências da segurança nuclear brasileira passa pela criação de uma agência nuclear reguladora realmente independente do governo e dos políticos, o que ainda não existe no Brasil.

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) é responsável por emitir as licenças, supervisionar e controlar a atividades nucleares. As Indústrias Nucleares Brasileiras (INB) são parte da Comissão e estão envolvidas na cadeia produtiva do urânio, consequentemente, a CNEN tem interesses comerciais em liberar os licenciamentos já que é fornecedora de combustível para os reatores da Eletronuclear. Enquanto não houver transparência não será possível saber o quão segura é Angra 3.

(Greenpeace, 06/03/2012)

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